Torne-se um gato

Eu detestava gatos até Ed entrar em minha vida. No dia do meu aniversário. Foi quase um presente de grego.Aprendi a DETESTAR gatos por osmose de tanto falarem que os gatos são insensíveis, não se apegam aos donos, são traiçoeiros, interesseiros, verdadeiros gatunos.

Amo os animais, sou incapaz de matar até uma barata, fico pensando no seu ciclo de vida,de como lutou pra estar viva, que tem filhotinhos pra alimentar e que tem um Sr. Barato (meu momento Dilma Rouseff) pra amar, então sempre desisto de matá-las, mas que dá vontade isso dá (meu momento Chuncky). Nunca maltratei um gato, mas era uma relação eu aqui você lá a metros de distância. Ai Ed me escolheu, me encontrou e me aceitou não como seu dono, mas como seu amigo.

No dia do meu aniversário estava com meus amigos na porta da casa de meus pais e aquela bola de pêlo, osso, orelhas e bigode apareceu. Era um indigente o pobre. Indigente não, auto lá! Era um desempregado de afeto. Mas era um desempregado com BRIO. Ele iria escolher um alguém para chamar de seu e de meu. E me escolheu.

Relutei, me fiz de durão, o maltratei empurrando-o com a palma de minha mãos e dizendo palavras duras para ele. Mas o amor vence tudo, e Ed já me amava sem nunca ter me visto e eu inconscientemente também já o amava.

Dei leite, depois dei leite com pão, mas sempre falando palavras duras para ele. Às vezes a generosidade também pode ser uma afronta. Mas Ed era e é altivo, sabe seu lugar no mundo e já sabia o lugar que ocuparia em meu coração. Até este momento nunca o deixei entrar por completo em minha casa e em minha vida. Até

Ed ser ameaçado por um cão feroz. O salvei do cão desalmado e prometi a ele e a mim que seriamos amigos pro resto de nossas vidas. Deixei ele entrar por completo em minha vida e em nosso escritório. Ed mora, vive, se refestela, lacra e samba na cara da sociedade em nosso escritório. No primeiro dia da morada ele entrou em um vaso apenas caríssimo e o quebrou. Como fazemos com amigos queridos que nos magoam o perdoei. O perdoei por amor, não por conhecer gatos, coisa que tive que fazer com a maior pressa. Comprei livros, pesquisei na internet e conversei com os adoradores dos felinos pra tentar entender uma personalidade que me fascinava e me dava um medo retado.

Dar palmadas? Nunca cogitei isso com meu bichano. Primeiro que não sou a favor de agressão como educação, segundo porque ele era um filhotinho muito do fofinho, terceiro que morria de medo dele não me querer mais como amigo, quarto que tinha pavor dos dentinhos afiados e das unhas também afiadas de Ed.

Li, me informei, estudei e adaptei todo o escritório para ele. Adaptei-me e desapeguei.

Desapeguei que ele arranha o sofá, desapeguei que no horário que ele tira a sua soneca em cima da impressora não podemos imprimir, entendi que o sofá é dele e ele às vezes deixa alguém sentar, me acostumei no meio das reuniões ele subir em cima da mesa e deitar em cima dos projetos. O escritório agora é dele também, assim como meu coração.

Ed não é arisco, ele só vai pra quem ele quer. Alguns ele vai pro colo outros não o apetece e muitos não fazem sua cabeça, a estes ele os ignora como só os gatos saber fazer (como gostaria de aprender este ignorar solene dos gatos que transformam certas pessoas em meras amebas) e assim ele vai vivendo.

Por questão de ciúmes, de posse e de apego físico e material, castrei Ed. Vai que ele se apaixonasse perdidamente por uma gata ou um gato e me abandonasse? O sexo é libertário.

Resolvi por egoísmo deixa-lo apaixonado só por mim. Foi bom SÓ pra mim e penso que muito ruim pra ele, afinal tem coisa melhor que namorar e se apaixonar por um gato ou uma gata?

Mas não deu muito certo. Acho que Ed tem um nível de testosterona em graus elevadíssimos. Sério. À tardinha ele se posiciona a frente da porta do escritório e ai de não abrirmos a porta para ele sair, desce uma espécie de entidade gatesca que faz Ed ficar transtornado ou transloucado depende do dia. E ele sai. Fez três grandes amigos nessas saídas: o gato Galego, o gato Garrincha e a gata Elizeth. E assim Ed conheceu uma nova forma de amar, o poliamor.

Ed é tão limpinho… Mas mesmo assim ele toma banho. Adora banho. Quente. Corta as unhas e bota gravatinha. E perfume também. Qualquer ser vivo merece ficar cheiroso, faz bem pra alma cheiro bom. Quando ele chega do banho o beijo muito. Muito mesmo até ele dizer chega miando baixinho. Excesso de amor nunca é bom, Ed me ensinou isso.

Depois de Ed descobri uma nova paixão: os gatos. Quem tem um gato sabe que nunca fica em um só. Agora tenho como amigos o gato Galego, a gata Elizeth e o gato Garrincha, um gato preto, que é uma pedra que ainda esta se transformando em ser humano jogou água quente cegando garrincha. Ahhhhhhhhh! Esta pedra não sabe com quem mexeu…

Garrincha é um gato e é preto. A pedra vai continuar sendo uma pedra, nunca vai virar HUMANO e vai continuar sendo infeliz pro resto de sua vida de pedra. Praga do gato Garrincha. E minha também.

Ed é bem humorado e brigão. Já botou muito cachorro pra correr. Ele não se sente bem com cachorros. Acho que é trauma de infância. Então ele bate em todos. Já tentei ensinar a ele a tolerância, mas é difícil amar quem nos maltratou um dia.

Recomendo um gato a todo ser humano. Um gato torna as pessoas melhores. Você não será dono dele, virará um gato igual a ele. Virei um gato, gigante, com olhar penetrante que tenta entrar através dos olhos na alma das pessoas (Ed que me ensinou isso) e ao entrar vejo que muitas pessoas nunca vão conseguir ser gatos, vão continuar sendo ratos, mesmo que alguns os enxerguem como gente.

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